O pensamento sistêmico

Somos todos testemunhas no nascimento de uma nova era.  A cada momento, é possível perceber o florescer de mudanças e transições de valores e de atitudes na humanidade um modo geral. Vivenciamos a queda de antigas ideologias e o nascimento novos conceitos de mundo e de novas atitudes. O novo mundo nos convida a uma nova visão, a uma nova forma de ver a si mesmo, aos outros e ao mundo; nos convida a uma nova forma de compreender os fenômenos naturais e humanos.

Para melhor compreender esse movimento, é preciso fazer um breve retorno ao século XVII, o século das Luzes. No  alvorecer do século XVII, após anos de obscuridade e de domínio da Igreja Católica sobre a produção e divulgação de conhecimento, os espíritos da época se inquietam e entoam o seu brado iluminista. Galileu, Bacon, Descartes, Newton são alguns dos nomes que levantaram as bandeiras da precisão matemática, do empirismo, do método analítico e da causalidade científica, em oposição ao dogmatismo religioso predominante na época.

A partir deste momento, a objetividade ganhou lugar de valor e a razão estendeu os domínios de seu império. Com a premissa de “fragmentar para analisar”, surge a figura do especialista.

É nesse contexto que a Psicologia surge como ciência, a partir da postura científica do famoso neurologista e psiquiatra austríaco Sigmund Freud (1856-1939), que buscou aplicar o enfoque analítico à ciência psíquica, desenvolvendo uma teoria explicativa. Analisar para chegar até as causas, Essa tendência de querer explicar tudo no método analítico ficou evidenciada no popular jargão “Freud explica!”

Essa forma de pensar a realidade é a grande propulsora do desenvolvimento tecnológico e civilizatório, justamente por sua capacidade de mensurar, prever e de exatidão. É a este modo de construção de conhecimento que devemos os avanços na Medicina, na Engenharia, entre outros.

Ocorre que, quando se trata de relações humanas, esse método se mostra incapaz de produzir a mesma eficácia alcançada em outras áreas de conhecimento. A ciência é capaz de prever o exato local em que uma sonda irá pousar em Marte, mas ainda não foi capaz de prever se um relacionamento entre um casal tem mais ou menos probabilidades de dar certo.

O império da razão relegou à subjetividade , às “coisas do coração”, às emoções, á percepção, à intuição e todas aos aspectos do humano e do social que não podem ser mensurados e fragmentados, o status de não-científicas e, consequentemente, não cofiáveis, não verdadeiras. De um extremo fomos ao outro, e hoje nos encontramos reféns de um conhecimento que, justamente por  seu caráter fracionado e compartimentado, deixa de lado aspectos importantes da  totalidade da natureza e do que é ser humano. 

Em matéria de relações humanas, a única certeza são as incertezas. O que a postura científica fez durante muitos séculos foi simplesmente excuir as incertezas, exluir tudo o que não fosse passível de mensuração. Ao invés de se ocupar em construir um modo de compreensão capaz de abarcar as incertezas, nós desconsideramos esses aspectos da vida, taxando-os de menos importantes e relegando-os ao campo da religião e da filosofia.

Ok. E o que isso tem a ver com você?

Como herança dessa forma de pensamento e produção de conhecimento – que é também dominante no ensino que tradicionalmente recebemos – nós desenvolvemos o hábito de formular nossos problemas não através da descrição, mas sim da explicação. Operamos o modo  binário de raciocínio, que coloca os problemas em temos de dilema, contradição, oposição (ou isso ou aquilo).Na busca pela causa, tendemos a buscar culpados e bodes expiatórios. A fonte dos problemas está nos outros: serviços, pessoas, mercado, economia.  Por exemplo: “Tendo em vista que tive pais muito ruins para mim, hoje encaro problemas nos meus relacionamentos.”  ou “Meu filho cresceu sem o pai, por isso ele tem problemas na escola.”

A lógica explicativa busca uma causa específica, o que acaba, consequentemente, levando à atribuição de culpa. Todas essas informações explicativas e esses julgamentos tendem a limitar as possibilidades de resolução do problema pelo participante, pois as explicações acabam por ditanciá-lo daquilo que é essencial na questão.

O que a prática clínica me mostra todos os dias, é que explicações não desembocam necessariamente em mudanças, saber a causa não soluciona. Ao contrário, frequentemente contribui para justificar a existência do problema, reforçando-o. Para provocar a mudança desejada, é necessário pensar diferente.

UM IMPERATIVO: MUDAR NOSSOS MODOS DE PENSAR

Nossas percepções são modeladas em função de nossos modos de pensar, e assim, é difícil para nós descobrirmos aquilo que muitas vezes está evidente, porque nossas antigas formas de pensar bloqueiam nossa capacidade de ver aquilo que é velho com um novo olhar. O comportamento de mudança requer que, primeiramente, se pense diferente para poder agir diferente.

Quando se trata de compreender as questões humanas, é preciso ampliar o olhar e o pensamento: é preciso pensar sistemicamente.

O modelo sistêmico centra-se nas interações dos elementos de um sistema, ao invés de seus elementos isolados. Se num primeiro momento é útil identificar e distinguir os elementos de um sistema, será melhor religá-los tendo em vista a compreensão global. Dessa forma, o foco é na relação, na interação.

O comportamento dos elementos de um sistema só pode ser compreendido ao levar-se em conta o contexto interacional no qual ele ocorre. Por exemplo, se um casal encara desentendimentos e conflitos, não será nada útil tentar identificar culpados, pois essa postura não traz a solução. Sob o olhar sistêmico, este casal tem a chance de identificar quais são as posturas que cada um assume dentro da relação e que contribui para a geração do conflito. Na maioria das vezes nossa propria postura atua como estimulo para os comportamentos que não gostamos no outro.

O mesmo vale para o mundo corporativo. O desempenho de uma empresa, por exemplo – que inclui em seu sistema dirigentes, técnicos, funcionários administrativos e operacionais – fundamenta-se mais na qualidade das relações e das cooperações entre seus diversos componentes do que na qualidade de todos os seus membros considerados isoladamente. Ou seja, as situações e probelmas são vistos sob a perspectiva da  causalidade circular: A e B são, ao mesmo tempo, causa e efeito.

A abordagem sistêmica parte da hipótese de que é necessária menos uma mudança no sistema do que uma mudança do sistema, ou que é necessária menos uma terapia no sistema do que uma terapia do sistema.

O vídeo abaixo é um mini documentário que mostra como a presença e o comportamento dos lobos mudaram o curso de um rio, nos Estados Unidos,. É um excelente exemplo de como estamos todos conectados e de como uma movimento de uma das partes do sistema muda o sistema como um todo.

O pensamento sistêmico vê as questões humanas como inseridas em um contexto maior, mais amplo: nenhuma pessoa vive isolada, nenhum problema tem uma causa só,  e nem é causado por fatores externos à nós. Isso significa que, para encontrar a solução para nossos problemas, é preciso olhar para o sistema ao qual pertencemos, os seus emaranhamentos, e o lugar ocupamos nesse sistema.  O primeiro e principal sistema do qual fazemos parte é a família, e  a forma como nos posicionamos na vida está intrinsicamente relacionada ao modo como nos posicionamos em relação ao nosso sistema familiar.

Acredito que problemas aparentemente complexos podem ter soluções bem simples. A solução que buscamos – seja ela relativa à  trabalho, amor, família, sucesso, entre outros – requer a coragem de olhar, com amor, para as posturas que assumimos na vida e nas relações –  começando pela,  a postura que assuminos em relação à nossos família, em especial, nossos próprios pais.

Olhar para o amplo:  este é o primeiro passo da mudança.

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