O que há de novo e atraente no trabalho das constelações familiares?

As relações familiares sempre foram um tema de estudo para a Psicologia. O estudo e o interesse pela participação da família na construção dos conflitos e do sofrimento decorrente destes últimos vêm desde os primórdios das ciências psicológicas. A preocupação de Freud, desde o início de seus escritos, voltou-se para as relações familiares de seus pacientes, colocando a família e o indivíduo como interdependentes. Desde então, muitos outros autores e abordagens psicológicas contribuíram no sentido de apontar as origens dos conflitos individuais nas relações familiares.  Emergiram correntes que abordam a transmissão psíquica entre gerações ,fenômeno chamado de transgeracionalidade psíquica, e a existência de um inconsciente familiar e coletivo, para além do inconsciente pessoal.

De que maneira o trabalho das Constelações Familiares vêm somar aos desenvolvimentos e práticas psicológicas anteriores? O que as Constelações Familiares trazem de inovador e diferente e que tem encantado milhares de pessoas ao redor do mundo?

Neste artigo apresentamos alguns tópicos que nos ajudam a conhecer mais sobre a Constelação Familiar e o que elas trazem de inovador para as práticas terapêuticas.

  1. O inconsciente familiar e coletivo

Ao desenvolver o trabalho com as Constelações Famliares, Bert Hellinger, retoma o conceito do inconsciente familiar, não apenas como teoria mas, essencialmente, através e um instrumento prático de acesso às dinâmicas psíquicas individuais e relacionais.

Segundo Helliner, “a família e o grupo familiar tem manifestadamente uma alma comum e uma consciência comum, que liga entre si os membros da família e os guia.”

  1. O foco nas relações

As constelações familiares também nos convidam a ampliar a visão e a olhar para o contexto interacional maior ao qual estamos inserdidos, considerando a família com um sistema de relações e conexões.

“Sistema significa aqui uma comunidade de pessoas, unidas pelo destino, através de várias gerações, cujos membros podem ser inconscientemente envolvidos no destino de outros membros.” (Bert Hellinger)

Quando falamos em sistema, logo nos vêm a ideia de rede, conexão, interligação. Nos grupos que pertencemos, estamos interligados de uma forma que ultrapassa a transmissão consciente de informações, a comunicação, o comportamento e os sentimentos individuais. Nas constelações podemos perceber e “ver” o que Bert Hellinger chama de “alma”, essa força que une. Muitos se surpreendem muito ao sentirem, durante uma constelação, esse vínculo ao contexto profundo da família.

A ideia de que, numa família, acontecimentos e destinos se comunicam através das gerações, mesmo quando nada disso nos foi contado, causa inicialmente estranheza nessa era da informação, que se julga esclarecida. O fato de continuarmos vinculados à nossa família e aos nossos relacionamentos, mesmo que tenhamos interrompido os contatos, não nos importemos mais com eles e mudemos constantemente as nossas relações é algo que contradiz nossa concepção de individualidade e de autonomia. Muitos, porém, percebem como por instinto, que seus relacionamentos continuam a exercer influência, mesmo depois de terminados, e que eles próprios permanecem vinculados a acontecimentos importantes de sua família, embora tenham acontecido em um passado remoto. As constelações familiares permitem que voltemos a sentir-nos como seres relacionais, fazendo valer a dimensão sistêmica e histórica de nossa existência.

  1. Desvelando emaranhamentos

A Constelação Familiar é um procedimento terapêutico que permite ao cliente olhar para o seu sistema familiar e compreender como um dificuldade, um sintoma, ou uma questão pode estar relacionada – ou, emaranhada –  ao seu sistema familiar e a outros membros de sua família, inclusive antepassados. Chamamos de “emaranhamento” esse envolvimento ou identificação inconsciente com destinos alheios

“Vivenciamos dolorosamente quão pouco livres nós somos e percebemos que, sem o nosso conhecimento ou vontade, revivemos, numa espécie de repetição compulsiva, destinos passados, ocorrências funestas e problemas existenciais não resolvidos. As constelações mostram-se particularmente eficazes quando sentimos estamos revivendo, sem necessidade própria, necessidades passadas e não pacificadas de outras pessoas, como se através dessa repetição algo pudesse ser reparado e ficar em paz.” (Jacok Schneider)

  1. Um instrumento de acesso ao inconsciente familiar

Se a família é um sistema no qual todos os membros estão em ressonância uns com os outros, compartilhando informações e conteúdo inconsciente através das gerações,  e se disso decorre muito do desenrolar da vida do indivíduo – inclusive dificuldades e destinos difíceis –  como podemos, então, ter acesso a essas dinâmicas inconscientes, desvelá-las para que, então, tenhamos a possibilidade de agir sobre elas?

A Constelação Familiar constitui-se um instrumento para isso. Podemos dizer que a Constelação Familiar é um procedimnto capaz de evidenciar processos psíquicos inconscientes por meio de uma representação espacial com pessoas desconhecidas ao cliente. Até aí, nenhuma novidade. J. L. Moreno já havia utilizado experiências do teatro de improviso em seu Psicodrama, para dramatizar conflitos psíquicos e relacionais. Virgínia Satir, com suas “esculturas familiares”, encenou de modo impressionante grandes famílias, abrangendo várias gerações e esclareceu histórias familiares junto com os clientes, ajudando-os, com isso, a solucionar conflitos individuais e relacionais.

Bert Hellinger, seguindo a mesma sensibilidade para contextos das interações familiares e, somando a isso o foco em métodos terapêuticos úteis e na experiência imediata, logo reconheceu que as técnicas que trabalham o “posicionamento” ou “representação” familiar são um método excelente para representar processos psíquicos e vinculações familiares. Assim, adotou o método a sua própria maneira: menos diretivo, partindo de uma postura fenomenológica, utilizando livres movimentos dos representantes, trocas intencionais de posições, introdução de pessoas excluídas, curtos diálogos liberadores, entre outras inovações.

O instrumento foi então se desenvolvendo e aprimorando, sempre a partir da experiência e dos efeitos que a prática desvelava. Hoje, constitui-se um instrumento capaz de trazer à luz as dinâmicas e posturas inconscientes que estão por trás das conflitos familiares e das dificuldades individuais; um instrumento que desvela fenômenos transgeracionais, interdependências familiares  e os chamados “emaranhamentos” familiares.

“Nas constelações familiares, praticadas em grupo ou na terapia individual”, diversos elementos da psicoterapia se desenvolvem e convergem num instrumento representativo, capaz de trazer a luz os processos anímicos, vivenciá-los e reduzi-los ao núcleo essencial que permite soluções. Ao mesmo tempo, esse instrumental leva a profundas experiências e descobertas humanas, que apontam para amplos domínios coletivos e espirituais, ultrapassando as fronteiras, por vezes restritas, da psicoterapia.” (Jakob Schneider)

  1. O método das constelações familiares: o fenômeno da representação

O método da constelação familiar é muito simples em seu processo básico. Nas palavras de Hellinger:

“Esse método chama-se Constelação Familiar e desejo aqui explicar sucintamente do que se trata. Dentre um grupo, são escolhidas pessoas aleatórias para representar membros da família do cliente (família atual ou de origem). Essas pessoas são posicionadas no espaço e então algo vem à luz. Nisso, o curioso é: as pessoas escolhidas sentem como as pessoas que representam, sem que tenham qualquer ideia das mesmas. Elas sentem até os seus sintomas ou, de repente, mudam o seu tom de voz, que soa semelhante aquele das pessoas representadas. Portanto, através da constelação familiar vem á luz algo oculto, que até então não era conhecido. Não posso explicar esse processo. Ele mostra que não somente o próprio cliente, mas também pessoas totalmente estranhas, tão logo estejam na constelação, ficam conectadas a um campo mais amplo e compartilham conhecimento que está presente neste campo que, com sua ajuda, vem à luz.”

Como pontua Hellinger, o fenômeno em que os representantes sentem-se como as pessoas que representam – reproduzindo emoções, sintomas e comportamentos – é ainda incompreensível do ponto de vista da ciência tradicional. Entretanto, a ausência de explicação não nega a existência do fenômeno, que parece apontar para a existência de um compartilhamento de informações que prescinde de comunicação verbal ou da observação corporal. Postula-se a ideia de “campo” de informações que a todos abrange,  cujo acesso é possível através da abertura à percepção, através de uma postura essencialmente fenomenológica. A percepção, portanto, surge como uma via de acesso ao saber e a verdade. É o que Hellinger chama de “saber por participação” ou, “saber vivenciado”.

“O que acontece nas constelações familiares é misterioso. Como é possível que pessoas inteiramente estranhas, que não tem a mínima ideia da família ou da pessoa que representam, de repente, reajam como essa pessoa e assumam os seus sentimentos, tipo de comportamento e até os seus sintomas físicos? Creio que aí temos que modificar algo em nossa concepção de mundo. Também na teoria filosófica do conhecimento ou na teoria da comunicação existe a ideia de que o saber baseia-se em informação. Entretanto, aqui vemos que existe também um outro saber, que não se baseia em comunicação, mas sim em participação. A pergunta é: o que é isso do qual participamos? Eu refleti muito sobre isso e o que me parece mais aproximado é que tenhamos participação em uma alma em comum. Que  aquilo que designamos como nossa alma não podemos designar assim, pois nossa alma nos liga à nossa família e, para além da família, com a grande alma, como a denomino. Nela, todos estão ligados entre si  e, com efeito, cientes. Dai temos esse saber participativo.”

A confiabilidade deste conhecimento se mostra pelos efeitos que promovem em todos os envolvidos que se expõe ao fenômeno.

Portanto,podemos concluir que estamos diante de novas perspectivas e possibilidades de compreensão do homem e de construção do saber, que exigem que as ciências humanas e sociais ampliem os marcos de compreensão sobre os problemas e situações que a realidade complexa nos apresenta, desenvolvendo estratégias metodológicas que abarquem a complexidade dos sistemas humanos

  1. Promovendo reconciliação

Conflitos surgem na alma quando forças contrárias nos dividem internamente e em nossas relações, obrigando-nos a lutar ou a reprimir. Um dos principais fatores de eficácia e atratividade das constelações familiares reside justamente em sua força de ligação e reconciliação. Elas operam uma reconciliação do indivíduo consigo mesmo, com aspectos negados de si mesmo; reconciliação do indivíduo com seu contexto familiar imediato (pais, irmãos, casais), apresentando possíveis soluções para desgastantes conflitos familiares; reconciliação no sistema familiar mais amplo, incluindo os excluídos e ajudando a reconhecer que todos pertencem em pé de igualdade; reconciliação em sistemas sociais maiores, como etnias e nacionalidades, ampliando os limites dos destinos individuais para promover a conexão com a “grande alma”, a força maior que a tudo e a todos une pacificamente.

….

Nas constelações familiares entramos em contato, de maneira simples e até mesmo silenciosa, com processos humanos fundamentais e geralmente os compreendemos logo, com um profundo saber interior. Como sempre gosto de ressaltar,  qualquer esforço de descrição do fenômeno que se mostra através de uma constelação familiar irá, inevitavelmente, reduzir o próprio fenômeno, sendo impossível conhecer o que ocorre em uma constelação por mera descrição – uma vez que se trata de um procedimento essencialmente empírico.

Ou seja, constelação é vivência. Não é possível conhecer uma constelação lendo ou escutando a respeito, é preciso experimentar.

Conheça as leis sistêmicas que regem os relacionamentos e que podem tornar a vida mais leve! Experimente constelar!

Referências:

HELLINGER,Bert. A fonte não precisa perguntar pelo caminho. 3 ed. Goiânia, GO. Atman, 2012

SCHNEIDER, Jakob Roberto, A prática das constelações familiares / ; tradução de Newton A. Queiroz. – Patos de Minas: Atman, 2007.

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