O setembro e os ipês amarelos

Desta vez ela chegou ao atendimento com os olhos cansados, as olheiras denunciando dias difíceis. Com o olhar direcionado ao chão, disse:

– Sabe, a vida anda muito pesada. Está tudo tão pesado, mas tão pesado, que eu me pergunto se não seria mais fácil… o suicídio. Vou lhe confessar algo que nunca contei a ninguém: às vezes,  eu invejo a coragem dos suicidas.

Eu estaria mentindo se dissesse que não estremeço quando um cliente fala em suicídio. Os anos de prática ainda não me tornaram imune ao medo que essa palavra evoca. “Suicídio.” Talvez esse medo nunca suma. Entretanto, os anos de convívio com a dor dos clientes – e porque não dizer, com minha própria dor – me ensinaram que, muitas vezes, tudo o que podemos fazer é nos expor a ela. Olhá-la de frente, apesar do medo. Não brigar. Concordar que ela existe,  que ela está ali.

Foi assim que aprendi a conviver com a minha Dona Melancolia ( como um nome próprio mesmo),  que hoje considero uma amiga que me visita de tempo em tempos. Quando ela vem, abro a porta e lhe dou guarida.  Assim, ela cessa de ficar batendo insistentemente na porta, em um volume cada vez mais alto. Agora, abro a porta na primeira e mais leve batida que a anuncia: “Olá minha velha amiga, seja bem vinda.”  Ela entra, se hospeda, fazemos pipoca, assistimos Netflix ( de preferência, filmes de época que nos fazem chorar de saudade de um tempo que eu nunca vivi.) O curioso é que,  logo agora que aprendi a apreciar sua presença, ela insiste que não pode ficar muito tempo!  Sua estadia tem sido cada vez mais curta…

É tomada por essas imagens que continuo a conversa com ela, dizendo:

– Sabe, está tudo bem que você tenha uma lista de motivos que te façam querer ir embora. De verdade, está tudo bem.  Eu também tenho a minha lista. E eu aprendi algo sobre isso que funcionou muito bem para mim, você gostaria de saber o que é?

– Sim. – ela disse

– O que funcionou para mim, é que eu disse a mim mesma que estava tudo bem em manter essa ”lista de coisas que me faziam querer ir embora”.  Não, eu não iria mais tentar apagar a lista ou me sentir mal por tê-la, no meu íntimo. Estava tudo bem. Mas sabe,  talvez eu pudesse  fazer também uma “lista de coisas que me faziam querer ficar” e, então,  andar pela vida com as duas listas no bolso, por um tempo.  Sem compromisso, só para experimentar como seria. Assim eu fiz e, de pronto, me surpreendi com algo curioso: a “lista de motivos que me faziam querer ir embora” era cheia de coisas grandes e pesadas, enquanto a “lista de coisas que me faziam querer ficar” era repleta de coisas bem pequenas, quase invisíveis – meu lírio da paz quando florece, o cheiro da chuva, os ipês amarelos pela cidade  no mês de setembro….

A menção dos ipês a provocou, e ela disse:

– Vindo para o consultório hoje, passei  por um ipê amarelo maravilhoso! Minha vontade era dar o sinal, descer do ônibus e ir até lá, só encostar nele. Eu realmente senti esse impulso.  E agora, diante do que você está falando… penso que talvez ele – o ipê amarelo –  estivesse me convidando a isso. Como um mensageiro… Você acha isso estranho?

Nesse momento, a atmosfera da sala já era mais leve. Nós duas ríamos juntas, conversando sobre a natureza e seus ensinamentos. Sobre isso, eu até lhe contei um segredo:

– Você vai me achar um pouco louca, mas uma vez uma árvore conversou comigo, eu juro! – Então, contei sobre a vez que participei de um encontro terapêutico em Macacos, bem no meio da natureza. Em determinado momento a terapeuta anunciou o intervalo, dizendo:

– Aproveitem o intervalo para andar pela mata e conversar com as árvores.

Mesmo correndo o risco de me parecer hippie demais, foi o que eu fiz. Encontrei uma árvore bem alta (olhar o topo dela exigia uma contorção do pescoço),  dei-lhe um genuíno abraço  e me dirigi a ela:  “Me diga, como faço para  crescer tão alto como você?”  Para minha surpresa, a árvore prontamente sussurrou nos meus pensamentos:  “Para atingir as alturas, você precisa primeiro ser tão pequena como essa formiga que passa agora pelo meu tronco.” E eu nunca mais esqueci daquela conversa.

Ela riu, concordou, e disse estar mais convencida ainda de que o ipê amarelo realmente lhe fazia um convite. Talvez, na volta, ela pudesse descer do ônibus e ir até ele. Ou quem sabe, sentar na sombra de alguma árvore da praça perto de sua casa. “Sim, eu vou fazer isso. Há quanto tempo não faço isso? E eu gosto tanto da natureza! Sim, vai ser bom pra mim.”

Incentivei que o fizesse.

– E você quer saber o que aconteceu com as minhas listas? – perguntei.  Com sua resposta afirmativa, continuei – Eu ainda as mantenho; as duas. Mas hoje,  faço um compromisso comigo mesma: eu não preciso excluir nenhuma delas,  a única coisa que preciso fazer é dirigir à  “lista de coisas que me faz querer ficar” a mesma atenção  e importância que eu geralmente dou a “lista de coisas que me faz querer ir embora.” Dou a elas atenção, igualmente. E, por alguma razão, isso tem funcionado para mim.

Eka lentamente balançou a cabeça, em concordância e, ao mesmo tempo, em atitude reflexiva. Ela também faria a sua própria “lista de coisas que me faz querer ficar” e traria no próximo atendimento.  Já podia pensar em algumas coisas: o ipê amarelo, seus momentos na natureza, as brincadeiras com o neto, as conquistas dos filhos… Despedimo-nos e eu a observei partir. Agora, com o semblante aberto e o rosto mais iluminado.

Definitivamente, esse encontro passaria a fazer parte da minha “lista de coisas que me faz querer ficar”, bem ao lado dos encantadores ipês amarelos que florescem em setembro no meu amado e belo horizonte, grandes mestres curandeiros, convidando-nos a nunca deixar de olhar para a vida.

 

*Arte da imagem:  WILSON VICENTE – Ipê amarelo na porteira – Fonte: Pinterest

Compartilhar Post:

Copiar link desse post:

Copiar