Os Pais também têm suas falhas

Certo dias desses, no consultório, um casal de pais expôs o seu medo de que a forma como educam o filho (mais autoritária e rígida) pudesse lhe infringir algum mal futuro. Eu lhes perguntei:

– Vocês tem medo de errar com o seu filho?

Eles responderam afirmativamente. Eu continuei:

– Pois eu lhes asseguro uma coisa: Sim, vocês irão errar.

Eles irão errar porque ser pai e ser mãe não é ciência exata, com manuais e tratados. E mesmo que eles acertem em tudo (na verdade, o que seria acertar?), ainda assim, isso não lhes dá garantia alguma em relação ao futuro do filho e de como ele será como adulto. E mais, também não evita que, no futuro, o próprio filho olhe para a educação perfeita que recebeu dos pais de forma crítica e julgadora, emitindo sentenças do tipo: “Quando eu for pai, irei fazer diferente.” (Isso até que ele ou ela se torne pai ou mãe… )

Na abordagem sistêmica partimos do pressuposto de um profundo respeito e honra aos pais. Penso que a Psicologia já desperdiçou muitos anos se ocupando de “culpar” pai e mãe pelo modo de ser do filho adulto. E nós também precisamos nos libertar dessa postura equivocada.

“Mas Isa, como eu posso honrar meu pai, um homem que me abandonou quando eu nasci?”

“Como vou respeitar minha mãe que é alcoólatra e sempre me agrediu?”

“Impossível respeitar minha mãe quando ela insiste em ser tão infantil.”

Parece difícil, mas quando experimentamos percebemos o quão simples é deixar fluir este amor que sempre esteve ali. Assim como a água que brota na nascente não precisa perguntar pelo caminho até o mar, o fluir do amor dos filhos para os pais é natural e acontece sem esforço. O curioso, é que quando nos ocupamos de bloquear esse fluxo – com nossas exigências de amor incondicional, com nossos julgamentos de certo e errado e com nossas ideias de como as coisas deveriam ser – isso exige de nós muito mais esforço, com altos custos para a saúde emocional e física.

Não nos cabe julgar; não nos cabe colocar a nós mesmos como melhores do que nossos pais; e muito menos nos cabe questionar a vida como ela aconteceu, a realidade como ela é. A grande e inevitável realidade na qual estamos inseridos é que recebemos de nossos pais a Vida. Se não fosse pelo encontro desse homem específico que é seu pai – com os seus defeitos e qualidades – e dessa mulher específica que é sua mãe – com seus defeitos e qualidades – você não estaria aqui, respirando, vivendo, fazendo amigos, sorrindo, chorando , amando, aprendendo. Acho que eles te deram algo de muito valor, não?

“Os pais também tem suas falhas. Também eles, como todos os seres humanos, estão limitados em suas possibilidades devido a sua origem e sua história e, principalmente, por sua culpa pessoal. Por mais estranho que isso possa parecer, isso não os diminui, e sim os engrandece, pois pais imperfeitos transmitem mais a realidade da vida do que pais perfeitos. Se de um lado não tornam a vida mais fácil para os filhos, por outro lado os preparam de modo mais abrangente para a vida real. Assim, quem concorda com seus pais da maneira que são, quem os aceita também com aquilo que lhes impões, ganha, através disso, toda a força que lhes puderem prover.” (Bert Hellinger).

Pare por um breve momento e pense no seu pai, na sua mãe. Lembre-se de como eles são. Como você olha para eles? Quais são as ideias e julgamentos que lhe passam a mente em relação a eles?

Lembre-se agora dos momentos de sua vida nos quais você não soube como agir, dos momentos em que você errou , dos momentos em que você não tinha respostas, dos momentos em que você não segurou as pontas, dos momentos em que foi fraco(a)… ou isso nunca aconteceu com você?

E apenas lembre-se de que seus pais estão nessa jornada muito antes de você.

Dizem que existem duas posturas que um filho deve ter em relação aos pais: a primeira delas é gratidão – a capacidade ser grato pela vida que recebeu através dos pais. Não custa repetir: se não fosse exatamente esses pais, esse homem e essa mulher específicos, você não estaria aqui. A segunda postura é a rebeldia – tomar a vida que recebeu dos pais e se ocupar de cuidar muito bem dela, se ocupar de construir a sua própria história, saudavelmente.

Esta postura pode ser resumida na seguinte frase, que você pode se imaginar dizendo aos seus pais agora:

Obrigado(a) papai. Obrigadoa(a) mamãe ( ou como você prefere os chamar). Vocês me deram a vida, e isso é tudo. Isso é suficiente. Pode deixar, que agora o resto eu faço.

Quando libertamos nossos pais das culpas que lhe colocamos, estamos, na verdade, libertando a nós mesmos. Livres, podemos abraçar toda a plenitude da vida, pois assim estamos em HARMONIA com a vida e coma realidade como ela é.

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