Rocketman e a jornada de cura emocional

Ao assitir o filme Rocketman, que conta parte da história de vida do cantor Elton John, fui tomada por muitas reflexões. Como psicóloga, foi impossível não perceber a grande metáfora terapêutica contida no filme, ao abordar a superação de conflitos emocionais e vivências difíceis na vida do astro, tais como: alcoolismo, bulimia, relações tóxicas, entre outros.

Metáforas existem para serem sentidas,  não explicadas. Entretanto, ouso trazer aqui alguns paralelos entre a história de vida do cantor e a jornada de superação e cura pessoal que todos nós, em algum momento de vida, podemos enfrentar.

Se você ainda não assistiu ao filme, sugiro que não continue a leitura para não ser surpeendido(a) por  SPOILERS.

As reflexões a seguir não seguem a linha do tempo do filme. Apenas listei alguns pontos que marcam a jornada de qualquer individuo que esteja em busca de superar dificuldades. São  momentos, mergulhos, inerentes ao processo de cura emocional e observados por mim em muitos processos terapêuticos que acompanhei, e que também podem ser vistos na trajetória de Elton John.

  1. Pedir ajuda

No início do filme temos o personagem Elton John atravessando um corredor. Ele se apresenta com as vestes extravagantes típicas de suas apresentações. Após cruzar o corredor com passos fortes, entra em uma sala onde é aguardado: trata-se de uma reunião de terapia de grupo. Assim, exatamente como está, ele toma o seu lugar e se apresenta ao restante do grupo.

COMO ele se apresenta? Qual é sua postura? As roupas extravagantes e tudo em sua fala parecem apontar: quem está ali é o astro, não o homem. Sua fala inicial tem pitadas de arrogância e – a partir desta cena – tem inicio a trama que desenrola a linha da vida do astro.

Ora, se o personagem se encontra no contexto de uma terapia de grupo, podemos concluir que ele está em busca de algum tipo de ajuda para alguma problemática que enfrenta.

Será mesmo?

Toda relação terapêutica é um processo de ajuda. Uma pessoa busca suporte de um profissional para enfrentar determinada problemática de vida que – sozinha – não está sendo capaz de superar. Entretanto, dois elementos são cruciais para que uma relação de ajuda seja efetiva em seus objetivos: que haja, em primeiro lugar, um genuíno pedido de ajuda e, em segundo lugar que o ajudante tenha a competência necessária para ofertar ajuda.

O pedido de ajuda – este pequeno e primeiro movimento – é, por vezes, o movimento mais difícil de ser feito. Ora, sem pedido de ajuda não há ajuda possível! Como psicóloga, já me deparei com clientes que se mostravam dispostos a ir até o consultório, custear os investimentos de uma terapia, mas que  – ainda assim – não traziam consigo um genuíno pedido de ajuda. Pedir ajuda significa reconhecer: “Há algo em mim que não vai bem e preciso/quero mudar. Ainda que eu não saiba o que fazer a respeito, sei que preciso fazer algum movimento.”

Muitas vezes, uma pessoa parece pedir ajuda mas está, na verdade, buscando por um cúmplice, alguém que alimente suas lamentações e acusações direcionaadas aos outros, alguém que legitime sua tão cara posição de vitima.

Podemos observar que no momento inicial da trama o personagem não apresenta, ainda, a postura necessária para que a ajuda aconteça. Não há, ainda, a humildade necessária. Ele ainda não está pronto para se despir de suas roupas extravagantes e nem das lamentações e acusações que o colocam como vítima dos outros e afastam da responsabilidade pela mudança desejada.

No decorrer do filme e do processo terapêutico podemos obervar a transformação do artista que vai, aos poucos, se despindo das vestes extravagantes. O astro vai se “desmontando” e o homem vai se revelando, no belo e instransferível processo de tomar consciência de si e da sua responsabilidade no modo de conduzir a própria vida.

É a partir daí que o processo de cura e superação pode se tornar possível.

 

2. Descobrir e recriar as imagens internas

Toda personalidade, no curso de uma vida, normalmente no inicio da infância, com frequência até mesmo como bebê, forma certas impressões devidas à influência do ambiente ou a experiências inesperadas e repentinas. Essas impressões se transformam em conclusões acerca dos acontecimentos, conclusões acerca de si mesmo e de como a vida funciona. Gosto de dizer que é como se cada um de nós nascesse de posse de um caderno em branco e, desde o inicio da vida, fôssemos anotando neste caderno nossas primeiras conclusões sobre a vida e o viver. A essas “conclusões”  damos o nome de imagens internas. Essas anotações feitas no “caderno do inconsciente” irão determinar, mais tarde, a forma como vamos encarar e interpretar nossas experiências da vida adulta.

Ocorre que as conclusões deste “caderno” não se baseiam na reflexão; elas são mais da natureza de reações emocionais e, por isso mesmo, na maioria das vezes elas são conclusões equivocadas. Uma criança vê e passa por um infortúnio e, então, generaliza esses acontecimentos em convicções.  Elas não são completamente desprovidas de certo tipo de lógica, mas esta é de uma espécie muito limitada e errônea. Com o passar dos anos estas conclusões descem mais e mais para o fundo do inconsciente, moldando em certa medida a vida da pessoa em questão.

Esse “caderno” inconsciente torna-se como um roteiro de vida – os chamados scripts inconscientes.  Ou seja, tais “conclusões”, ao mesmo tempo que podem ser dolorosas ao individuo (por exemplo: “não sou digno de receber amor”; “sou sozinha, não posso contar com ninguém”; “as pessoas irão me ferir”)  também são vistas como a verdade das coisas e da vida, e passam a nortear a vida do individuo. Sem nos darmos conta, muitas vezes, na vida adulta, fazemos escolhas e ações que vão de encontro à confirmação daquela “verdade” contida no “caderno”.  Assim, sentimos como que se tivéssemos uma confirmação daquela “verdade”, e o ciclo continua…

Todos nós passamos por isso. Num certo momento de sua infância você sofreu um choque, um trauma.  Quando você pensa em um choque imagina logo uma experiência repentina com um impacto muito forte e inesperado, como um acidente. Mas um choque pode também acontecer, particularmente para uma criança, numa descoberta gradual de que as coisas são o contrário das suas expectativas mais queridas. Por exemplo, uma criança vive com a ideia de que os pais são perfeitos e onipotentes, e que dedicam a ela um amor exclusivo. Quando surge a percepção de que não é assim – e todos ser humano enfrentará essa verdade inevitável –  ela vivencia isso com dor, como um choque.

Quando esses processos permanecem escondidos, quando não são elaborados, parte da sua personalidade não pode crescer. Se uma planta é deixada na terra com suas raízes cortadas, ela não pode crescer.  É preciso ir à raíz da questão. Enquanto você for guiado por essas imagens, você continua no procedimento infantil porque, neste aspecto, a sua mente permanece infantil, ou seja, presa a uma interpretação infantil dos fatos – não importa o quanto o restante da personalidade tenha progredido e aprendido, parte dela permanece no estado em que ela estava quando as imagens-conclusões foram formadas e mandadas para o inconsciente.  Consequentemente, uma parte de um ser maduro, em outros aspectos, permanece imatura. Na verdade, essa parte continua a fazer as mesmas deduções que a criança fez, de forma emocional e inconsciente, enquanto a imagem não é elevada para a consciência.

Podemos então, levantar a questão: qual imagem, originada na infância, orbita na vida do personagem Elton John, de modo a influenciar seus julgamentos e passos como homem adulto?

Talvez essa imagem possa ser traduzida em uma frase dita por sua mãe quando o filho lhe revela a homossexualidade. Ela diz: Você nunca será amado adequadamente.

Podemos interpretar que a frase da mãe, enunciada no contexto da vida adulta de Elton John, atualiza uma imagem interna que o mesmo já trazia desde a infância: a ideia de não merecer ou poder ser amado. As origens desta imagem parecem remontar à relação conflituosa com o pai. Não podemos esquecer que o próprio Elton John teve participação na produção do filme, e que, portanto, a forma como seu pai foi retratado não escapa da vivência subjetiva do cantor. Muito provavelmente condiz  com a imagem que o próprio Elton traz do pai em seu coração, fruto de suas reminiscências infantis: um pai indisponível e incapaz de dedicar amor ao filho.

O script de não ser amado adequadamente será atualizado na vida adulta na relação amorosa que o cantor manteve durante anos com seu empresário John Reid . Observa-se um desequilíbrio na relação, com Elton transferindo ao parceiro controle de diversos aspectos de sua vida – tal qual o papel de um pai perante um filho.

Com o desenrolar da trama o personagem vai se libertando destes emaranhados limitantes,  a partir de um percurso terapêutico, onde ele pôde, então,  revisitar e ressignificar sua história de vida, em especial, a relação com os pais.

 

  1. Revisitar a relação com os pais

– Que estrago um pai pode fazer na vida dos filhos! – a frase foi enunciada dentro da sala do cinema, por uma mulher que assistia ao filme na fileira próxima a minha.  Na tela, a cena de um Elton John ferido pelo reencontro com seu pai.

As relações familiares sempre foram um tema de estudo para a Psicologia. O estudo e o interesse pela participação da família na construção dos conflitos e do sofrimento decorrente destes últimos vêm desde os primórdios das ciências psicológicas. A preocupação de Freud, desde o início de seus escritos, voltou-se para as relações familiares de seus pacientes, colocando a família e o indivíduo como interdependentes. Desde então, muitos outros autores e abordagens psicológicas contribuíram no sentido de apontar as origens dos conflitos individuais nas relações familiares.

Eu seu processo de superação e individuação, foi imprescindível que Elton John revisitasse o passado e a relação com os pais: a sensação de abandono deixada pelo pai; as críticas da mãe e a sensação de nunca ser bom o suficiente para ela; as imagens internas geradas na infância.

Entretanto, essa volta ao passado não poderia ter como objetivo encontrar ali os culpados para os fracassos da vida do homem adulto. Ao contrário, as amarras só puderam ser desfeitas quando o artista consegue olhar para os pais com um outro olhar – o olhar do homem adulto que agora é. Um olhar que desiste de culpar ou cobrar dos pais aquilo que eles não puderam oferecer; um olhar amplo o suficiente para conseguir enxergar a riqueza do que foi possível e suficiente.

Um olhar que vê nos pais apenas um homem e uma mulher comuns e, por isso mesmo, falíveis. É então que, a partir deste olhar generoso aos pais o filho pode então olhar carinhosamente para si e se reconhecer também como apenas um homem comum, também falível e imperfeito.

Quando libertamos nossos pais das culpas que lhe colocamos, estamos, na verdade, libertando a nós mesmos. Livres, podemos abraçar toda a plenitude da vida, pois assim estamos em harmonia com a vida e coma realidade como ela é.

A maneira como os pais de Elton foram retratados – em especial, o pai – deixa entrever que há ainda dores a serem olhadas e reintegradas.  E sabe de uma coisa? É assim mesmo, não acaba ali.  Esse é o trabalho de uma vida toda.

Em resposta à fala de minha vizinha expectadora, na sala do cinema, deixo aqui uma fala de Bert Helinger:

“Os pais também tem suas falhas. Também eles, como todos os seres humanos, estão limitados em suas possibilidades devido a sua origem e sua história e, principalmente, por sua culpa pessoal. Por mais estranho que isso possa parecer, isso não os diminui, e sim os engrandece, pois pais imperfeitos transmitem mais a realidade da vida do que pais perfeitos. Se de um lado não tornam a vida mais fácil para os filhos, por outro lado os preparam de modo mais abrangente para a vida real. Assim, quem concorda com seus pais da maneira que são, quem os aceita também com aquilo que lhes impões, ganha, através disso, toda a força que lhes puderem prover.”

 

  1. Acolher a criança interior ferida

Na infância, o pequeno Elton John, ou melhor, o pequeno Reggie Dwight (verdadeiro nome do artista), percebia e sentia a distância do pai. Há uma cena em que o filho faz um pedido ao pai: Você não vai me dar um abraço?

De certa forma, Elton irá tentar preencher o vazio deixado pela ausência desse abraço tão desejado com subterfúgios como álcool, relações tóxicas, excesso de trabalho, entre outros.

Talvez uma das cenas mais emocionantes do filme seja a do encontro do Elton adulto com sua criança. Na cena, a criança dirige ao Elton adulto a pergunta que antes fazia ao pai: Você não vai me dar um abraço? E o abraço dos dois é o ápice metafórico do processo de cura que aconteceu ali.

Nós, terapeutas, conhecemos bem o poder curativo desse processo de acolher as feridas da criança interna. Mas o que isso realmente significa?

Quando, por alguma impossibilidade ou indisponibilidade dos pais, estes não são capazes de oferecer ao filho o amor seguro de que ele necessita, a criança  permanece queixosa, permanece com a sensação de falta, e isso será transferido para a vida adulta. Dentro do adulto vive ainda essa criança queixosa, aguardando pela completude daquele amor dos pais e buscando esse amor por outros meios.  É verdade que esse processo deverá ser completado, mas aqui,  já não cabe mais exigir ou esperar dos pais que o façam: é o próprio adulto que toma para si a tarefa de completar o que faltou, o que não foi possível.

Quando é que nos tornamos adultos? É quando completamos 18 anos? Ou será que é quando nos tornamos financeiramente independentes? Seria quando temos a maturação completa do corpo físico? Não…  Tornamo-nos adultos quando somos RESPONSÁVEIS por nós mesmos; quando assumimos nossa história e paramos de nos sentir vítimas.  É aquele momento em que olhamos para nossa história e podemos dizer: está tudo certo como foi. Isso não é mesmo que dizer: eu aprovo como foi, mas sim, eu acolho como foi, eu não brigo, não luto com a realidade que se apresentou para mim. Quando deixo de lutar com o real, quando deixo de lamentar o que foi, posso acolher a força que só a realidade é capaz de nos incutir, em toda a sua plenitude.

Eu tomo a força do real e agora vou fazer por mim o que faltou.  Se faltou carinho, eu me dou carinho.  Se faltou cuidado, eu me dou cuidado.  Se faltaram palavras de incentivo, eu me torno meu maior incentivador.  Se faltou oportunidades, eu as busco.

Esse é o caminho da individuação. É o caminho em que vamos enfrentando nossas feridas, mas vamos cedendo espaço para um olhar mais amplo e autorresponsável.

 

5. Se apoiar em figuras de força

Fundamental em qualquer processo de superação de dificuldades é a presença de figuras de força, pessoas em quem o individuo pode confiar e se apoiar. Tais pessoas são verdadeiras fontes de força. Na vida de Elton, parecem ter tido papel importante, nesse sentido, sua avó materna e seu amigo e parceiro de trabalho Bernie. Não importa o que acontecia, eles ainda acreditavam em Elton. Eles olhavam para sua força, e não para sua aparente fraqueza.

6. Responsabilizar-se

As circunstâncias e acontecimentos de vida nos marcam, mas não nos determinam – uma vez que somos responsáveis pelo que escolhemos fazer de tudo isso que nos marcou.

No decorrer da trama e do processo terapêutico Elton John parece ir tomando consciência da sua responsabilidade na própria infelicidade e no desequilíbrio que vivia.

Particularmente, eu já estava ficando incomodada com a forma “vilanizada” com que o personagem de John Reid foi retratado.  Sei que para fins hollywoodianos toda trama precisa de um vilão, entretanto, na vida real os papéis não são tão segmentados assim.  Não existem algozes e vítimas. Cada um de nós tem sombra e luz.  Todo relacionamento é construído a dois – até os mais abusivos. Ou seja, cada um coloca o seu “tijolo” na construção daquela relação, exatamente como ela é. Sabemos que a escolha de um parceiro nunca é aleatória.  Escolhemos o parceiro que ( inconscientemente) nos faz viver nossa sensação mais familiar – a sensação que traz concretude para nossas imagens e scripts da infância.

“Eu nunca deveria ter permitido que você me tratasse da maneira como me tratou” – e é com esta frase, dirigida ao personagem John Reid, que Elton recobra sua dignidade, compreende sua parcela de participação na própria dor e, assim, pode  tomar nas mãos a condução da própria vida.

Isso se chama autorresponsabilidade.

“Não importa o que fizeram de mim. Importa o que eu faço com o que fizeram de mim.” Jean-Paul-Sartre

 …

Portanto, a história de Elton John, como contada no filme, ilustra uma jornada de cura e transformação pessoal que pode nos inspirar. Afinal, cada um de nós traz as suas próprias feridas que pedem por cura e mergulhos profundos e a vida irá, constantemente,  nos fazer também este convite à transformação e a busca do nosso melhor.

Que possamos fazer bom proveito!

 

Referências

  • Ordens da Ajuda – Bert Hellinger
  • Não temas o mal – Eva Pierrakos
  • Palestra no Youtube “Acolhendo a criança interior”, de Andrei Moreira

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